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Compreender a existência do paciente é deixar que o fenômeno em questão se mostre em toda originalidade e profundidade, sem que a priori haja a intervenção de uma teoria que diga quem ele é ou poderá ser; ou um manual no nível de um CID que defina de antemão e de forma esquemática sobre as características de seu adoecer.
Através dessa atitude que vai além do senso comum e da atitude natural de ver as coisas, surge a perspectiva de um olhar desinteressado e ingenuo que vê o fenómeno no seu ser. No caso um ser adoecido, nos dá o percepção de seu ser-no-mundo, mundo aqui no seu sentido não só do seu espaço geográfico ou físico, mas também dos conteúdos expressos dos seus pensamentos, memórias, devaneios, etc.
Portanto, é a própria fala do consulente que pode muito bem revelar as nuances de seu sofrimento. É o espaço da escuta também a oportunidade da verdade de uma singularidade se fazer conhecer e a confiança entre dois seres se desenvolver cada vez mais no encontro terapêutico, onde o cuidar do ser está em jogo e em vias de acontecer.
De fato, a palavra terapia remete essa ideia de cuidar do ser, cuidado esse que só tem seu sentido quando o ser analisando se permite ser cuidado e ajudado não somente pelo terapeuta no seu ouvir e intervir, mas por si mesmo no seu falar, sentir e intuir.
Bilê Tatit Sapienza, na sua obra Encontro com a daseinsanalise, nos fala justamente da compreensão que visa o sentido naquilo que o paciente traz em terapia. Ela de forma brilhante nos diz: "compreender o que surge na sessão é se projetar com o paciente na procura do sentido que aquilo faz na existencia dele, na procura de como aquilo se insere, não em una teoria explicativa, mas na vida dele. No decorrer das sessões, aquela existência vai ampliando sua transparência para si mesma naquilo tudo que ela comporta de desejos, de conflitos, de insatisfação, de sentimento de injustiça, de revolta, de medos, de arrependimentos, de incertezas, de dedicação, de amor, de raivas, de desconfianças, de projetos".
Ao longo do tempo, é possível que o paciente se dê conta do que precisa fazer na sua vida, qual a melhor decisão precisa tomar ou até mesmo passa a se descobrir naquilo que ele fala entre uma sessão e outra. Ou seja, como bem nos ensinou a autora citada, aquela existência amplia pouco a pouco a sua transparência para si mesma. O melhor caminho para que esse fenômeno se mostre é sempre a liberdade de ser, a liberdade que torna o consulente mais preparado para reafirmar com autenticidade o que diz, podendo servir como suporte para a compreensão dos sentidos que emergem na sua vida.