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OS PERIGOS DE EXISTIR
Existir é padecermos nesse mundo dia após dia
Com as agônicas dúvidas que nunca se findam
Enquanto nos entregamos com amor e paixão
Aos conhecimentos mais dolorosos e implacáveis.
Existir é nos mantermos incompletos
E insatisfeitos nesse breve tempo de nossas vidas...
Mesmo assim, sonhamos como poetas
Um dia voar nos céus do inescrutável.
Existir é enfrentarmos aquelas lutas permanentes
Na esperança de alcançarmos um norte,
Ainda que não saibamos ao certo
Se um dia iremos poder encontrá-lo.
Existir é sentirmos, na alma, passarem depressa
Os melhores momentos da vida.
E, apesar de tudo, encarar face a face a morte que nos assola
Com as perdas e a velhice de nossos frágeis corpos.
Existir é vivermos em busca perene
De consolo no amor que promana
De uma outra alma que esteja disposta
Na partilha de afetos, beijos e abraços.
Existir é enfrentarmos os perigos
De uma doença incurável,
Bem como de uma morte eminente
Enquanto planejamos o nosso futuro.
Existir é navegarmos nos oceanos
Dos sonhos, ideias, vontades e planos.
Ao mesmo tempo, é um desafio que nos joga
Para perto dos escolhos dos medos e aflições.
Existir é vivermos sob lágrimas e suspiros
Enquanto vemos os nossos projetos
Desabarem como simples castelos de areia
Ou enquanto buscamos com bravura nos reerguer.
Existir é nos aventurarmos pelos abismos do mundo;
É, pois, sentirmos a todo o momento um risco inevitável.
Existir é uma dor de parto constante e sem trégua
Durante o curso de nossas crises e renovações.
Existir significa, em silêncio resignado,
Percebermos que somos todos passageiros
E almejarmos de maneira inquietante
Aquilo que se mantém na esfera do inacessível.
Existir é conhecer as nuances do sofrimento
Como seres conscientes de nossa condição,
Vulneráveis tanto a finitude inevitável,
Quanto a angústia da superação de cada dia.
Existir é espreitar os perigos que rondam o mundo
E as fatalidades na vida de todos os seres vivos:
Destinados a fome das vontades que se intensificam
Em face do vazio da não-concretização.