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O ADVENTO DA CONSCIÊNCIA
Toda consciência profunda de nós mesmos implica uma consciência hipertrofiada acerca de nossa condição, de nossas limitações, da finitude e da fatalidade a qual estamos sempre sujeitos durante a nossa breve existência.
Sem uma consciência sobre nossos deveres e responsabilidades como ser humano, somos impelidos ao jugo das leis que freiam os nossos instintos mais primitivos e os nossos desejos às vezes um tanto quanto nefastos, sem que tenhamos tempo para ao menos nos conscientizar de algo.
No entanto, ser conscientes nos faz ser responsáveis por nós mesmos e até pelos nossos semelhantes, gerando com isso o senso do dever moral que nos dá um lampejo acerca dos nossos limites e de nossa moderação.
A consciência é, portanto, uma grande contradição: ela pode nos adoecer de maneira neurotizante e também pode nos despertar. E por que não dizer que podemos estar ao mesmo tempo despertos e doentes por sabermos demais? Se estar doente ajudar no processo de humanização do ser humano, quem negaria que essa condição não seria a mais benéfica, um santo remédio para a salvação do ser?
Não deixa de trazer sofrimentos, angústias, inquietações aquele que busca saber em demásia cada área e seu conteúdo, razão pela qual, pouco a pouco, passa a ser a argamassa filosófica para a estruturação do seu próprio conhecimento.
É, sem dúvidas, uma aventura que pode nos levar a um certo desespero e a desesperança frente ao caos do mundo contemporâneo com todas as suas mazelas e contradições sem fim. Mesmo assim, essa aventura tem os seus prazeres e alegrias à medida que o discernimento se torna ainda mais implacável na vida de um indivíduo.
Todavia, é perceptível que o sofrimento em certa intensidade nos ensina, alarga nossa cosmovisão, além de propiciar uma maneira de ver o mundo mais próxima do que é a vida com toda sua crueldade, fatalidade, cor e beleza.
O advento da consciência, a sua aquisição que não deixa de ser na maioria da vezes tardia na vida de um ente humano, não vem antes senão na noite escura de nossa alma, como bem intuiu o sábio São João da Cruz, ou seja, da constatação dolorosa do que somos para que o despertar aconteça como a aurora de um dia mais pleno e diáfano.